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Marcelo Teles

13 de Setembro de 2010

  Biólogo, Mestre em Desenvolvimento e Meio Ambiente do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia – IFCE / Campus Sobral.

Os grandes desafios para o desenvolvimento sustentável

A segunda ICID terminou com um ar de renovação do ânimo daqueles que lutam pela sustentabilidade no semiárido. A leitura da “Carta de Fortaleza”, que foi a última atividade da conferência, propõe recomendações para a atuação de diversos setores da sociedade, em especial, do poder público. Globais ou locais, pragmáticas ou subjetivas, preventivas ou remediativas, todas as recomendações convergem para o senso comum de que, na corrida contra a desertificação e a desigualdade social, é fundamental a adoção de um modelo sustentável de desenvolvimento.

No entanto, existem três grandes desafios que devemos superar para alcançá-lo plenamente. O primeiro, que é a fundamentação conceitual do desenvolvimento sustentável, já foi satisfatoriamente superado. Diversos autores contemporâneos tem trazido importantes contribuições conceituais, e apesar de haver divergências em relação aos meios de alcançá-lo, há um consenso geral a respeito de seu objetivo maior: de garantir às gerações futuras a mesma disponibilidade e qualidade de recursos ambientais que desfrutamos hoje.

O segundo desafio consiste exatamente no reconhecimento de que o desenvolvimento sustentável requer mudanças significativas em aspectos sociais, culturais, econômicos e políticos de nossa vida, bem como a busca por essas mudanças. Esse movimento de mudança de atitude tem se difundido, porém, com muitas divergências.

Se por um lado, essas divergências entravam os avanços globais rumo ao desenvolvimento sustentável, por outro lado, talvez façam parte dele. De um modo geral, reconhece-se a necessidade de diminuir a concentração de renda, de abolir práticas produtivas que debilitam os processos ecológicos e de garantir uma participação efetiva das comunidades nos processos políticos/decisórios, e, provavelmente, o mais adequado seja que cada comunidade, em seu próprio contexto, encontre um meio de promover tais mudanças.

O terceiro desafio consiste em quebrar o círculo vicioso de velhas práticas sociais, políticas e econômicas que nos prendem a esses problemas, que tanto queremos superar. Não se pode esperar desfrutar de todos os benefícios do desenvolvimento sustentável sem se abrir mão de nada. Não podemos esperar reduzir a pobreza, por exemplo, se continuamos pagando salários miseráveis aos nossos empregados. Tudo tem um “preço”, e o “preço” da sustentabilidade é o custo de oportunidade do lucro-máximo capitalista – e esse é seu principal entrave.

Mesmo tendo consciência dos problemas sócio-ambientais, as pessoas não querem abrir mão de seus velhos hábitos, luxos, vantagens e comodidades. É preciso mudar essa forma de pensar e aceitar que precisamos abrir mão de algo para enfrentar de verdade nossos problemas sociais e ambientais. É preciso compreender que cada centavo gasto com uma prática social ou ambientalmente sustentável se converte em benefício real para sociedade e ambiente, e, conseqüentemente, em avanço real rumo ao desenvolvimento sustentável.

Certamente, esse é o maior desafio a ser superado, pois envolve a formação do caráter de cada um, ainda durante a infância e depende da educação que acontece diariamente em casa, na escola, na comunidade, nos meios de comunicação e propaganda em massa. A mudança de atitude social/ambiental, nosso principal desafio, é também o que exige mais esperança e paciência, pois poucos adultos estão abertos a esse tipo de mudança – as crianças são nossa melhor chance!

Marcelo Oliveira Teles de Menezes. Ceará, 1/9/2010