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Reflorestamento não é monocultura!
por Marcelo Teles
12 de Setembro de 2011
Biólogo, Mestre em Desenvolvimento e Meio Ambiente do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia – IFCE / Campus Sobral.
Como biólogo, desde os tempos da faculdade, tive contato com uma quantidade considerável de projetos de reflorestamento e manejo florestal no estado do Ceará. No começo, tudo era novidade, mas com o tempo e a experiência, passei a perceber falhas e inconsistências na maioria dos projetos, o que tem me rendido muita reflexão desde então.
Os reflorestamentos que conheci, inclusive alguns feitos por órgãos do Governo do Estado do Ceará, não raro utilizam espécies exóticas. Em alguns casos, toda a área reflorestada foi ocupada exclusivamente por uma única espécie exótica, como a Leucena, por exemplo. Além disso, a maioria dos projetos desvia-se fortemente da densidade média de árvores da região.
Bem, comecei minhas reflexões com a etimologia da palavra “reflorestar”. O prefixo “re”, de origem latina, tem um sentido de repetição, e quando unida a “florestar”, cria um significado aproximado de “recompor uma floresta”. Intuitivamente, o termo pressupõe a restauração de uma floresta deixou de existir. Logo, “Reflorestar” é mais que plantar árvores; é reconstituir uma floresta (ou pelo menos induzir que e este processo ocorra).
Como estudante de Ecologia, sei também que uma floresta é mais que um conjunto de árvores juntas, e corresponde na verdade a uma complexa comunidade vegetal composta por várias plantas (não só árvores), de várias espécies, em várias faixas etárias, associadas a uma grande variedade de animais, fungos e bactérias, dos quais depende para se manter.
Além disso, é importante ressaltar que cada mata, cada ecossistema tem seu próprio conjunto de espécies e suas próprias características ecológicas. A complexidade de sua composição, estrutura e funcionamento ecológico é de tais proporções que é virtualmente impossível reconstituir um ecossistema em 100% de sua originalidade.
Então vi que os reflorestamentos de sabiá e leucena que conheci no Ceará, bem como os “reflorestamentos” de eucalipto e pinheiro que existem no sudeste não condizem com o ato de “re-florestar”, e pouco contribuem para reconstituir a comunidade vegetal que um dia existiu nesse lugares. Esses projetos são na verdade imensas monoculturas arbóreas tão alienígenas aos ecossistemas nativos quanto uma plantação de soja.
Tecnicamente, é equivocado tomar uma monocultura arbórea por reflorestamento, mas na prática é isso que se observa em várias regiões do Brasil, inclusive no nordeste. Por ignorância ou por má-fé, muitas empreiteiras e órgãos ambientais têm feito e aceitado essas monoculturas para cumprir suas obrigações ambientais, previstas por nossa legislação.
Temos muito que evoluir na prática do reflorestamento. Não podemos restaurar nossas matas sem profissionais qualificados. Emergencialmente, temos que reconhecer que trata-se de uma atividade complexa, que requer trabalho especializado de profissionais das Ciências Florestais, e incentivar a formação desses profissionais, que atualmente são escassos no Nordeste.
Também não podemos reconstituir uma mata sem saber como ela era antes de ser suprimida. Logo, outro passo igualmente importante é produzir conhecimento sobre a composição das matas de Caatinga em cada região do nordeste e promover inventários florestais nos arredores das áreas a serem reflorestadas, para que possamos verdadeiramente recompor nossas matas.
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