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Arborização: prestigiando as árvores nativas da Caatinga
por Marcelo Teles
25 de Janeiro de 2012
Biólogo, Mestre em Desenvolvimento e Meio Ambiente do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia – IFCE / Campus Sobral
Manter as árvores nativas na arborização pública é importante por vários motivos que têm sido objeto de estudo de várias pesquisas. Além de serem um estoque da flora nativa, elas mantém a fauna urbana, contribuem com vários serviços ambientais e sobretudo mantém os cidadãos em contato com a biodiversidade local. Devido a todas essas funções, seu uso tem sido fortemente incentivado em projetos de arborização.
No entanto, aqui no nordeste há uma situação bem peculiar: apesar de constarem nos projetos, elas raramente têm o prestígio dos técnicos e da população. Temos árvores belíssimas, como os ipês, as barrigudas, a embiratanha, as imburanas, dentre muitas outras. No entanto, as pessoas preferem plantas o “nim”.
As principais críticas contra o uso de árvores nativas da Caatinga para a arborização pública relacionam-se ao fato de serem caducifólias. Em geral, essas árvores perdem as folhas durante a fase mais seca do ano. Além de gerar “sujeira” e acabar com o sombreamento, seu crescimento fica interrompido até que novas folhas brotem com as chuvas, tornando seu crescimento relativamente lento.
Ora, boa parte das árvores nativas da Europa e da América do Norte, por exemplo, também são caducifólias. Mesmo assim elas são mantidas nos espaços públicos, garantindo todas as benesses citadas acima e permitindo que os cidadãos acompanhem as diferentes estações do ano. Acontece que eles podem se “dar ao luxo” de mantê-las, pois não precisam de sombras no inverno e contam com sistemas de limpeza pública muito eficientes.
Assim, sempre que alguém pensa em plantar uma planta nativa da Caatinga, logo muda de ideia quando lembra que ela vai demorar a crescer e não oferecerá proteção alguma contra nosso sol tropical durante a estiagem (momento em que as sombras são mais necessárias). É seguindo essa lógica que as plantas nativas perdem seu prestígio em favor do culto às plantas exóticas, que “crescem rápido e dão muita sombra”.
No entanto, talvez esse problema tenha solução, o que falta é vontade de mudar. Talvez por ser uma das regiões menos ricas do país ou talvez pelo estigma das “secas”, os nordestinos, sertanejos ou urbanos, geralmente não têm estima pelo que é da região. Chamam as plantas nativas pejorativamente de “mato” e supervalorizam tudo que vem de fora. Isso está lamentavelmente enraizado em nossa cultura, mas é preciso mudar, tentar, inovar...
Já que não queremos perder nossas sombras nem perder tempo varrendo nossos pátios e calçadas, porque não tentamos irrigar as árvores nativas durante a estiagem? Afinal de contas, já fazemos isso com as exóticas! Porque não as adubamos, como fazemos com as exóticas? Ou se elas de fato não possuem crescimento rápido, porque não temos um pouco mais de paciência e damos um espaço para elas nas nossas vias?
Parece ser uma questão mais cultural do que técnica; e vai muito além da arborização: valorizar o que é “da terra” parece ser um desafio para o nordestino. No nordeste, o ditado “casa de ferreiro, espeto de pau” realmente faz sentido. Mas um povo não tem como desenvolver-se plenamente enquanto não aceitar sua identidade, sua cultura e sua natureza. E então, até quando vamos negar nossas raízes?
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