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Chuvas, secas, verões e invernos
por Marcelo Teles

02 de Março de 2012

A mídia chama a atenção para o semiárido principalmente em situações de calamidade, geralmente durante as secas. Infelizmente, isso funciona como uma "anti-propaganda" para moradores de outras regiões do Brasil e mesmo para moradores das capitais nordestinas que não possuem contato com a natureza.


Vítimas de uma visão unilateral, essas pessoas podem construir uma imagem deturpada do semiárido, associando-o à miséria e à escassez hídrica permanente – o que não é verdade. Nem todo o nordeste é semiárido. E mesmo as partes semiáridas possuem uma estação anual chuvosa que pode durar de 3 a 6 meses, durante a qual as paisagens acinzentadas da estiagem dão lugar a um verde intenso e cheio de vida – época do plantio e das colheitas.


Por estarmos próximos à linha do Equador, as mudanças entre as estações do ano nem sempre são evidentes, como ocorre em altas latitudes. Mas isso não quer dizer que não as possuímos. Sábios observadores da natureza, os sertanejos chamam esse período úmido de inverno e o período seco de verão. No entanto, tecnicamente, é o contrário: a estação do ano na qual ocorrem as chuvas do nordeste são verão e outono (período do ano em que temos maior insolação), enquanto que inverno e primavera são estações secas.


Assim, maior parte do nordeste vive sobre um regime de anual de alternância entre períodos de umidade e de estiagem, com temperatura relativamente constante. E isso não é seca. As estiagens fazem parte do regime climático tropical semiárido, natural do nordeste, como o fazem em muitas outras regiões de todo o mundo. As secas do nordeste, por outro lado, são eventos anômalos nos quais a estação chuvosa é reduzida, geralmente em função do fenômeno climático “El Niño”.


Essas estiagens anuais, contudo, não inviabilizam as atividades produtivas como agricultura e pecuária, mas requerem planejamento e manejo especial. A falta de planejamento hídrico pode transformar a seca em um verdadeiro momento de calamidade. É preciso respeitar a dinâmica natural do ambiente, adaptar as técnicas e o ritmo produtivo a ela e principalmente, prevenir-se contra os eventos críticos (secas). Este é o segredo, e ao mesmo tempo, o desafio da convivência com o semiárido. Só assim podemos afastar os fantasmas da desertificação, da fome e da pobreza.
 

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